
Ela caminhava, distraída, pensando em tudo que já acontecera. As pessoas que passavam, cúmplices silenciosas, eram apenas vultos apressados que desapareciam no deslizar dos corpos da avenida.
Chovia. Chuva miúda batendo em seu rosto, num toque suave e delicado, cobrindo – a de paz e frescor. Uma estranha sensação de irrealidade a fazia flutuar. Seus pés mal tocavam o chão, simplesmente seguiam em frente, comandados por um instinto poderoso e conhecido. Sentia – se sem forças para desistir, já tão conquistada, tão desconfortavelmente sedenta.
Cinco e meia. Logo mais o veria, com os livros sob o braço, lápis no bolso esquerdo da jaqueta, um meio sorriso nos lábios molhados, ligeiramente entreabertos. E então, todo seu corpo responderia à chegada. Todos os sentidos alerta, onde quer que ela estivesse. Onde quer que ele estivesse.
Já eram cinco e meia? Logo mais. Daqui a pouco ela estaria fascinada por seus olhos, capazes de lhe roubarem a graça e de libertarem sentimentos que ela não sabia dominar. Sentimentos divididos entre a razão e a emoção. Confusos demais para entenderem aquela secreta paixão.
Finalmente ela o viu. Logo seus olhares se cruzaram e ela sentiu o coração acelerar. Ela atravessou a rua e veio em sua direção.
- Larissa..
-Olá! – ela disse, sem conseguir disfarçar a emoção de revê – lo.
- Faz muito tempo que você chegou? – ele perguntou, sorrindo.
Ela fez NÃO com um gesto.
- Estou atrasado... – ele lamentou, enquanto caminhavam rua abaixo. – Ainda preciso pegar o metrô e ir ao centro, entregar esta papelada.
Ela notou que algo o perturbava. Parecia evitar seu olhar.
- Posso ir com você? – perguntou ela, de repente.
Ele parou de andar por um momento, sorriu, sem jeito, e olhou em torno procurando encontrar um lugar em que pudessem conversar com mais calma. Havia um, pouco depois da esquina, onde serviam café e pão de queijo. Ele a guiou, enquanto atravessavam a rua.
Larissa sorriu ao sentir o contato da mão de Davi em seu ombro. Ele tinha o toque seguro e gentil.
- Vamos tomar um suco.. Ou qualquer coisa... – ele murmurou, enquanto oferecia uma cadeira para ela sentar – se.
O lugar estava quase vazio. Acomodaram – se em uma mesinha, à esquerda da entrada. Um bom lugar. Discreto o bastante para aquele encontro.
Larissa tinha a impressão de que ele não se sentia à vontade em ser visto em sua companhia. Não que não gostasse dela ou que não a achasse bonita. Ela era uma garota inteligente e interessante. Um pouco insegura, talvez... Mas qual adolescente não é?!
- O que quer beber?
- Um suco...
Estava um calor daqueles! Davi colocou os livros sobre a mesa e pediu uma água tônica com gelo e limão, a sua preferida, e um suco de acerola para ela.
Dali a pouco veio à garçonete, trazendo as bebidas. Olhou – os com curiosidade discreta e se retirou, silenciosa.
Larissa molhou os lábios no suco enquanto o observava.
- Davi.. – ela começou a falar.
- Larissa, eu...
Ele sorriu sem jeito.
- Você é a garota mais linda que eu conheço. Mas eu não posso.. Você não entende.
- Eu trouxe uma coisa pra você – e Larissa entregou – lhe um envelope cor de rosa.
Ele rasgou o lacre e retirou uma foto. Sua mão tocou a dela fazendo – a estremecer.
- Está linda! – ele disse, admirando a fotografia por uns instantes. Leu a dedicatória. Depois olhou para ela, sem jeito:
- Preciso ir, Larissa.. – comentou, parecendo desconfortável. – Estou atrasado! – e abriu a carteira para pagar a conta. A carteira que ela lhe havia dado de presente.
- Agora você pode colocar a foto aí. – ela comentou, levantando – se. Davi concordou e sorriu. Ela ficou com vontade de se declarar, mas cadê a coragem?
Caminharam até a entrada do metrô, em silêncio.
- Bem, eu te vejo amanhã.
- Com certeza! – ela concordou.
- Não se esqueça de estudar para a prova.
- Tá legal!
- Tchau, Larissa.
- Tchau, Davi..
E se despediram com um beijinho no rosto. Como ele estava perfumado! Esse era outro detalhe de que Larissa gostava nos caras.
Ele desapareceu, engolido pelo ritmo apressado das pessoas que desciam a escadaria em direção ao metrô. Larissa ficou só. Mas não se sentia solitária. Davi estava em seu coração.
Enquanto caminhava, sentindo o calor do sol aquecer seu rosto, Larissa relembrou o momento em que posara para a foto. Havia pensado tanto em Davi.. Seria possível que ele percebesse o brilho em seus olhos? – suspirou, esperançosa. Mais cedo ou mais tarde teriam que conversar sobre aquele romance. E então, ela falaria abertamente sobre seus sentimentos.
O trem começou a andar. Davi procurou um lugar livre no vagão e sentou – se. Sentia – se encalorado. Ou seriam seus anseios que lhe sufocavam o peito? Pensou em Larissa. Era uma linda garota. Inteligente, sensível. Uma adolescente e seus sonhos de amor..
Apesar de tudo que lhe já acontecera na vida, Davi ainda conservava seu bom senso. Admirou a foto outra vez e releu a dedicatória: “Para você, com amor de Larissa.”
Suspirou, tristemente. Não havia outra coisa a fazer. Desceu na estação do centro e, sem remorsos ou culpas, rasgou a foto em pedaços disformes, atirando – os no coletor de papéis.
Com isso chegamos a conclusão de que: “O verdadeiro amor também é dado a sacrifícios!”